Gabriel tem dezoito anos e nasceu na praia. Cresceu dentro do mar, surfava todo dia e ganhou uns campeonatos pequenos da região.
Em março, descobriram algo no osso da perna direita. O único jeito de tirar era levar a perna junto. Ele entrou na operação com duas e acordou com uma.
Em casa são três: ele, a mãe e a Mel, a irmã de nove anos. O pai se foi quando Gabriel era bebê, e desde então é a mãe que segura tudo, trabalhando na cozinha de um restaurante da orla.
Ele não ficou parado. Pegou a muleta e foi pro calçadão vender água e picolé. Cada real ia pra um pote com a palavra prótese escrita na tampa.
Faz três semanas que o que sobrou da perna inflamou. O doutor foi direto: o que resolve é uma operação de limpeza, e se demorar, pode subir e levar o resto.
Desde então, Gabriel não consegue mais vender. A febre vai e volta, não dá trégua, e o dinheiro que eles tinham guardado já foi todo nos cuidados.
A mãe não falta um dia no restaurante. Mas o que ela ganha não chega perto do valor da operação, muito menos da prótese.
O Gabriel já entregou uma perna sem reclamar. Levantou, foi trabalhar de muleta e nunca pediu nada pra ninguém.
Hoje ele está numa cama, segurando o que restou. E a família não alcança a operação sozinha.
A virada dele pode começar aqui: